Um semestre para pensar (e produzir)

by Susana Lucas
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Depois de cumprir, no semestre passado, toda a componente letiva anual, entro agora num período raro — e precioso —: um semestre livre de aulas. Para quem vive da investigação, da escrita e da construção de projetos científicos, este tempo não é um luxo; é infraestrutura invisível.

É neste espaço de tempo concentrado que posso finalmente retomar e concluir o livro que iniciei em 2021, um projeto de fôlego que exige algo cada vez mais escasso na vida académica: continuidade. Um livro não se escreve nos intervalos entre aulas, reuniões e formulários. Escreve-se quando o pensamento pode amadurecer sem interrupções.

Este semestre permite também algo igualmente crítico: preparar candidaturas a financiamento de projetos. Não falo de preencher formulários, mas de pensar ideias, desenhar consórcios, articular objetivos científicos com impacto social e tecnológico. A boa ciência começa muito antes da submissão — começa em tempo mental disponível.

A ideia de organizar o trabalho académico desta forma não me surgiu do nada. Foi-me partilhada por um colega do Politécnico de Milão, onde a própria instituição privilegia uma separação mais clara entre períodos de ensino intensivo e períodos de investigação concentrada. Em vez de tentar fazer tudo ao mesmo tempo, fazem-se as coisas em sequência — e, por isso, melhor.

Esse modelo reconhece uma verdade simples: dar aulas e investigar exigem tipos de atenção diferentes. Ensinar bem implica presença, preparação, acompanhamento dos estudantes. Investigar bem implica silêncio, profundidade, risco intelectual. Quando se tenta fazer ambas as coisas em simultâneo, em alta rotação, o resultado tende a ser mediano nas duas.

Por estes lados, este tipo de organização ainda não é muito bem visto em termos hierárquicos e mesmo dos pares. A cultura dominante valoriza a ocupação permanente: estar sempre em aulas, reuniões, júris, comissões. O tempo de investigação — paradoxalmente o que define a instituição como produtora de conhecimento — aparece muitas vezes como algo que se faz “quando sobra tempo”.

Mas talvez estejamos à beira de uma mudança. À medida que se exige mais impacto científico, mais projetos competitivos, mais publicações e mais ligação à economia e à sociedade, torna-se evidente que a investigação precisa de blocos reais de tempo. Não de migalhas.

Ter um semestre mais dedicado à investigação não é afastar-se do ensino. É, pelo contrário, investir nele a médio prazo: quem investiga melhor ensina melhor, escreve melhor, orienta melhor e contribui mais para a reputação científica da instituição.

Se esta prática se tornar tendência — como já é em várias instituições europeias — ganharemos todos: docentes menos exaustos, ciência mais ambiciosa, livros terminados, projetos financiados e universidades mais relevantes.

Fica a reflexão.

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