Esta semana foi apresentada a Fundação da Construção, uma iniciativa promovida pela Ordem dos Engenheiros que merece uma reflexão por parte de todos aqueles que trabalham, investigam ou estudam o setor da construção.
A construção é uma das atividades mais relevantes para o desenvolvimento económico e social de qualquer país. É responsável pela criação e manutenção das infraestruturas que utilizamos diariamente, pela construção dos edifícios onde vivemos e trabalhamos, pela reabilitação do património e, cada vez mais, pela implementação de soluções que promovem a sustentabilidade e a adaptação às alterações climáticas.
Apesar desta importância estratégica, nem sempre o setor consegue comunicar à sociedade o valor que efetivamente cria. Muitas vezes, a atenção pública centra-se nos problemas, nos atrasos ou nos custos das obras, esquecendo-se do impacto positivo que a engenharia, a arquitetura, a construção e a gestão de infraestruturas têm na qualidade de vida das populações.
Neste contexto, a criação da Fundação da Construção pode representar uma oportunidade interessante para reforçar a valorização do setor, promover a inovação, apoiar a investigação, aproximar empresas, instituições de ensino e centros de conhecimento, bem como contribuir para uma maior sensibilização da sociedade para a importância da construção.
Vivemos um período particularmente desafiante. A construção enfrenta simultaneamente a necessidade de responder à crise habitacional, à reabilitação do edificado existente, à transição energética, à digitalização dos processos, à escassez de mão de obra qualificada e à adaptação dos territórios a fenómenos climáticos cada vez mais extremos. Nenhum destes desafios poderá ser resolvido por uma única entidade ou profissão.
Por isso, faz sentido criar espaços de convergência onde diferentes intervenientes possam colaborar, partilhar conhecimento e construir soluções conjuntas. Uma fundação pode assumir precisamente esse papel de agregação, funcionando como uma plataforma capaz de aproximar academia, empresas, associações profissionais, administração pública e cidadãos.
Enquanto docente e investigadora, vejo também nesta iniciativa uma oportunidade para reforçar a ligação entre a investigação e a prática profissional. Muitas das soluções que estão a ser desenvolvidas nas universidades e centros de investigação podem gerar um impacto muito maior quando encontram mecanismos eficazes de transferência para o setor produtivo.
Ao mesmo tempo, os desafios reais das empresas e das comunidades podem inspirar novas linhas de investigação aplicada, mais próximas das necessidades do território e das pessoas.
Naturalmente, o verdadeiro impacto da Fundação da Construção dependerá da sua capacidade de mobilizar os diferentes atores do setor e de transformar intenções em ações concretas. Mas o simples facto de existir uma estrutura dedicada a pensar estrategicamente o futuro da construção já constitui um sinal positivo.
A construção está a mudar. Está mais digital, mais sustentável, mais exigente e mais interdisciplinar. Talvez esta nova fundação possa ajudar a reforçar uma mensagem que importa recordar: investir na construção não é apenas construir edifícios ou infraestruturas. É investir na qualidade de vida, na competitividade económica, na sustentabilidade e no futuro das próximas gerações.
Por vezes, as grandes transformações começam precisamente com a criação de espaços onde pessoas e organizações decidem trabalhar em conjunto. Talvez seja esse o maior potencial desta nova iniciativa.
